quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Veja e Folha, não dá mais para ler

Estou há dias pensando em escrever mais algumas reflexões sobre o PiG.  Acho que muita gente já sabe o significado de PiG, mas não custa nada repetir.  PiG significa "partido da imprensa golpista" e se refere à nossa mídia, com destaque para seus maiores representantes, isto é, Globo, Band, Abril, Folha e Estado.  Li, comprando em bancas e assinando, a Folha de S.Paulo por muitos anos - cerca de trinta para ser mais preciso.  A quem preferia o Estado de S.Paulo, sempre comentei que a Folha era mais progressista, moderna, inovadora.  É verdade.  O Estado sempre foi conservador, e continua sendo.  E também mais autêntico.  É elogiável o fato de o Estado ter publicado receitas de culinária e poemas de Camões no lugar das matérias censuradas pela ditadura militar.  Salvo por essa jogada de marketing ao dizer-se tantos dias sob censura por ter sido impedido judicialmente de divulgar grampos do caso Sarney, o Estado tem sido coerente, inclusive quando em editorial, e copiando o New York Times, declarou-se apoiador da candidatura do Coiso (que é o candidato da direita, José Çerra, o mais preparado desde criancinha).  A Folha, por outro lado, apoiou efetivamente a ditadura militar.  Confesso que não sabia disso quando comecei a lê-la.
Há alguns anos vinha notando um comportamento suspeito de nossa mídia.  O primeiro sinal de que me lembro foi aquela campanha ostensiva contra o Collor, conduzida principalmente pela Folha e pela revista Veja.  Não votei nele, claro, mas acho que a mídia não foi isenta, plural, apartidária, independente, mas, ao contrário, praticou verdadeiro golpismo que culminou no impeachment.  Ainda me lembro da propaganda da Folha, logo depois, afirmando que não chutava cachorro morto.  Claro que esse comportamento já era explícito e escandaloso no caso da Globo.  Aliás, é imperdível o documentário “Muito Além do Cidadão Kane”, feito em 1993 por Simon Hartog para a BBC, proibido aqui, mas facilmente encontrado na Internet.  A TV Record talvez o publique esse ano.
Nos últimos anos a situação se agravou com o ataque diário ao governo Lula desde 2003.  Não acho que essa imprensa deva ser chapa branca, como foi durante a ditadura, mas um pouco de equilíbrio seria de se esperar.  O governo, como a gente mesmo, comete erros e acertos.  Mas nossa mídia faz questão de focar praticamente apenas nos erros.  É compreensível que a imprensa, assim como uma pessoa qualquer, tenha convicções filosóficas e políticas.  No entanto, acho que é desonesto um jornal ocultar isso de seus leitores.  Implicitamente todo jornal reproduz o pensamento de seus donos e acionistas.  Sou a favor da total liberdade de expressão e acho que a mídia deve explicitar suas preferências.  Isso é raro, mas no ano passado tivemos o Estado apoiando o Çerra e a Carta Capital, a Dilma.  Folha e Veja continuam dissimulados, arrasados pela derrota de seu candidato, e já atacando direta e indiretamente o governo Dilma.
Essa campanha eleitoral foi a pior que já vi, superando em sordidez a campanha de 1989.  A direita usou a Internet e a religiosidade “como nunca antes neste país”.  A Folha chegou a publicar uma ficha falsa da Dilma, cuja tosca elaboração é atribuída a um site de ex-torturadores.  A Folha, a Veja e a Globo imaginaram que poderiam colocar e tirar um presidente quando bem entendessem, como fizeram com o Collor.  Ledo engano.  O brasileiro amadureceu e muita gente não engole mais propaganda de qualquer espécie.  O fato é que, como se diz por aí, peguei nojo.  Não consigo mais abrir a Folha ou a Veja.  Os telejornais da Globo e da Band embrulham meu estômago.  E está pior agora, surpreendentemente.  Não vou considerar o ano passado, já que a mídia estava em plena campanha pelo candidato da direita.   Mas agora repetem o que fizeram durante todo o mandato de Lula.  Todos erram, mas o PiG ameniza e até esconde as falcatruas dos tucanos e de seus capangas do DEM e do PPS.  Assim não dá mais pra ler e ver.
Quero deixar claro que não sou contra a liberdade de expressão, mas exatamente o contrário.  O problema é que nossa mídia está nas mãos de meia dúzia ou uma dezena de famílias, na maioria famiglias mesmo, com aquela origem, entende? Cinicamente pregam a liberdade de expressão, mas não aceitam contestação.  Ou seja, a liberdade de expressão é só para a mídia.  A mídia pode criticar e falar o que quiser, e ninguém mais.  A sorte é que hoje temos a blogosfera para buscar informação de forma democrática.  Mas, reitero, é muito importante desenvolver um senso crítico, para não aceitar qualquer coisa como sendo a verdade.  Não se pode aceitar passivamente o que alguém escolheu previamente por nós para nortear nossa agenda e nossas convicções.  É necessário conhecer esses formadores de opinião e entender quais são seus interesses.  Você pode continuar comprando a propaganda da Veja, mas deveria saber mais sobre a história da Abril e sobre a ligação de sua revista com o grupo sul-africano Naspers, pró-apartheid.  

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Senso comum e senso crítico

Há alguns anos, hoje muitos para falar a verdade, o Instituto de Química da USP tinha a tradição de realizar um “colóquio de aferição de nível”.  O evento era organizado pelos veteranos e o público alvo era os calouros.  Sim, era uma espécie de trote.  Não o trote de sofrimentos físicos impingidos aos novatos, mas um trote psicológico que, mesmo sob controvérsias, tinha a finalidade de verificar se o senso dos calouros era comum ou crítico.  Falsos professores pós-doutorados, que na verdade eram veteranos desconhecidos, apresentavam teses que jogavam por terra tudo aquilo que a gente tinha aprendido no colegial e nos cursinhos preparatórios para o vestibular.  E o clima era pesado, arbitrário, autoritário, um mise en scène baseado na ditadura militar.  Muitos alunos comentavam que a experiência tinha sido estressante e trazia emoções como medo, raiva e tristeza, mas teria sido ao final uma lição de vida.  Não me incluí nesse rol porque fiquei tão preocupado que faltei na semana toda para estudar e, focado na preparação para o colóquio, acabei esquecendo de verificar a data exata do evento.  Lamentei muito quando soube que perdi tal experiência.  No ano seguinte, para descontar, fiz questão de impressionar os calouros circulando com um livro enorme debaixo do braço e avisando a todos para não faltarem ao colóquio que seria dia d e hora h. Também aproveitei as lições do colóquio, embora de uma forma diferente, sem estar acuado naquela atmosfera sombria e, por isso, sem saber que emoções experimentaria de forma mais intensa.
De qualquer forma, a grande lição daquele dia foi o despertar para o senso crítico, deixando para trás o senso comum da grande maioria alienada.  Ali a gente aprendeu a ouvir e questionar sobre a validade não apenas da informação, mas principalmente a validade da fonte daquela informação.  Boa parte de nós, naquela época, passou pela universidade não aprendendo apenas sobre a matéria ou área de conhecimento específica (no caso, química), estudando muito, tirando boas notas e nos tornando profissionais com amplo embasamento teórico.  Sorte que não foi apenas isso.  Tivemos acesso a uma visão diferente sobre o que estava acontecendo no país e no mundo.  E aprendemos a refletir sobre aquilo que a mídia (jornal, revista, rádio, TV, cinema) escolhia para nos apresentar, sobre a forma escolhida para apresentação, e sobre quem possuía essa mídia e quais seriam suas motivações.  Ou seja, se um jornal estampava determinada manchete, as perguntas eram: por que aquele tema foi escolhido, por que foi apresentado daquela forma, quem era o dono do jornal, quem ele tinha sido antes e quais seriam seus interesses.
Conheço muita gente que se acha bem informada por ler determinada revista e determinado jornal.  Não conto aqueles que lêem apenas a parte de esportes ou a de entretenimento.  Mas a questão é: será que essa gente está bem informada mesmo? Alguém pode ter escolhido não só o que as pessoas devem saber, mas de que forma devem saber, não? Ou será que existe mídia isenta, imparcial, pluralista, apartidária e independente?  Se for assim, Papai Noel, Mula Sem Cabeça e almoço de graça também existem.
Bem, o assunto é longo e há diversos aspectos a serem considerados.  Tema para futuras reflexões.

Mídia golpista hoje

Domingo é dia de folhear os jornalões e tentar entender o que a máfia dos barões da mídia está querendo que a gente acredite. O Globo, en...